Um filho teu não foge à luta
Maurício Fernando Bozatski
Existe uma tendência natural em se confundir a causa com o efeito de determinado fenômeno quando se pretende ocultar as causas por algum motivo. Em se tratando de violência é evidente que as armas de fogo potencializam e aumentam o número de mortes, mas as armas de fogo são apenas o meio através do qual a violência se manifesta. Se as armas de fogo simplesmente desaparecessem da face da terra, as mortes violentas continuariam acontecendo por meio de paus e pedras. A causa da violência está na condição humana e não os instrumentos utilizados para expressar esta condição. Se esse comportamento violento é intrínseco ao ser humano, é inato, ou se é desenvolvido no âmbito do convívio social é uma questão de difícil resposta. Filósofos, religiosos e pensadores de toda ordem possuem visões antagônicas sobre o assunto. Talvez a dicotomia mais clássica seja a apresentada por Hobbes e Rousseau, na qual o primeiro acredita que o humano é mau por natureza, o homem é o lobo do homem, e a sociedade é o único meio no qual o homem pode evitar a morte violenta. Assim, para Hobbes se existe violência é porque há falha do processo civilizatório, ausência de sociedade, de educação civil e assim por diante. Já para Rousseau o homem é bom por natureza, em estado natural o humano é o bom selvagem que apenas se torna violento justamente porque o convívio social o impele para a violência ao extirpar do homem a sua liberdade natural. Qual destes proeminentes pensadores está correto? Difícil responder, até porque a violência em estado natural não existe, ninguém pode considerar um desvio de conduta o fato de um leão atacar uma gazela. Todavia é inegável que a história da civilização foi escrita com sangue e lágrimas. Era um pensamento comum na antiguidade que o homem nascia envolto em sangue e também banhado por sangue deveria morrer. Se olharmos rapidamente para os livros sagrados, para os hinos e símbolos nacionais, para a história das revoluções e formação das identidades nacionais e regionais, logo perceberemos que a violência parece ser o modus operandis comum da humanidade. E já que apostamos definitivamente no processo civilizatório, pois ninguém deseja voltar a viver em estado natural, então uma maneira de encontrarmos a paz perpétua seria redirecionar o processo educacional para uma formação sólida do caráter com valores democráticos e republicanos e um desenvolvimento sadio do corpo. Pois se a mente e o corpo estiverem em harmonia é bem provável que a violência gratuita e injustificada desaparecerá.
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