Globo Comunidade – Bom Senso

Minha participação no Globo Comunidade de 07/11/2009

Quando os colégios viram olarias

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Arte Rupestre - Dois bisões esculpidos em argila do período pré-histórico.

 

Quando os colégios viram olarias

 

Maurício Fernando Bozatski

 

Toda vez que volto a Prudentópolis lembro como uma parte importante das cidades é feita. A minha cidade natal deve ser uma das que tem mais olarias (cerâmicas) em todo o planeta. Nestas olarias são produzidos os tijolos e as telhas tão vitais para o progresso das cidades. A arte de fabricar tijolos é bastante simples, é necessário argila de boa qualidade, lenha para o forno e mão-de-obra que trabalhará muito junto ao calor escaldante dos fornos, recebendo pouco para isso, para que se produzam estas maravilhas da civilização. Segundo a Bíblia e alguns mitos babilônicos o próprio homem foi feito com barro, e isto é simples de explicar visto a importância que o barro possui até hoje para países como o Irã e o Iraque.

Roger Waters da banda Pink Floyd foi um dos primeiros a relacionar alunos a tijolos e escolas a olarias em sua música Another Brick in the Wall. Enquanto professor, apesar de gostar da banda inglesa, sou um pouco mais otimista em relação à educação, pois vejo que os professores podem criar, inovar, desenvolver novas metodologias, há muita liberdade para isso mesmo na rede pública. Desde 2005, tempo em que leciono no quadro próprio do magistério do estado, nunca uma coordenadora pedagógica entrou na minha sala para ver como são minhas aulas e também nunca se confrontou meu plano de ensino com o que efetivamente leciono em sala. Assim, posso criar projetos, trabalhar com filmes – já fui premiado em âmbito nacional por isso –, convidar colegas das outras áreas para lecionarmos juntos interdisciplinarmente numa mesma turma. Por esta razão sempre acreditei que os professores produzem tijolos e não alunos pensantes apenas se tiverem afinidade para serem oleiros e não educadores.

Todavia, minha fé está levando um duro golpe. A maioria dos colégios está adotando o formato de educação por blocos. Para quem não sabe como isto funciona, mostrarei sucintamente e também formularei algumas perguntas que parecem não ter sido feitas por ninguém.

As disciplinas tradicionalmente ensinadas ao longo do Ensino Médio, acrescidas de Sociologia e Filosofia foram divididas em dois blocos. Os alunos irão estudar em um bloco a cada semestre; se reprovarem repetirão o semestre e o mesmo bloco, e assim não perdem um ano no caso de reprovação, mas apenas seis meses, o que desonera o estado. A primeira pergunta é: quem dividiu as disciplinas e determinou a relação entre as que estão em determinado bloco? Isto não vai à contramão de tudo o que vem sendo defendido como a transdisplinaridade e o pensamento complexo? Segundo, a Educação Física, apesar de ter o seu conteúdo científico a ser repassado e de os colégios quase não terem condições adequadas à sua prática, deve ser oferecida ao longo de todo o ano letivo. Os adolescentes deixarão de se alimentar e metabolizar ao longo de um semestre ao ponto de não precisar praticar esportes? Será que não se sabe que a única pratica esportiva de alguns é o momento da aula de Educação Física?

Terceiro, apesar de muitos não perceberem, a carga horária de várias disciplinas foi reduzida. Língua Portuguesa, por exemplo, que era oferecida em quatro aulas semanais, ao longo de quatro bimestres teria 160 H/A, e agora, nos blocos, é ofertada em seis aulas semanais, totalizando apenas 120 H/A. Se os alunos já tinham dificuldade em aprender a escrever e interpretar textos a contento com 160 horas de aulas no ano, será que se tornarão melhores com 120 horas no ano? E Filosofia e Sociologia que tinham garantidas 80 horas-aula no ano, com duas aulas semanais por bimestre, agora terão apenas 60 horas-aula com três aulas na semana ao longo de um semestre.

Enfim, o que parece é que o governo quis implantar duas novas disciplinas no Ensino Médio, e como não tem estrutura para oferecer um ensino integral, e só pode oferecer 25 aulas semanais, então reduziu a carga horária de outras disciplinas discretamente. E fez isso com a implantação dos blocos sem que, num primeiro momento, a maioria dos professores que lecionam as mesmas percebesse isso, sobretudo, por que o próximo ano é ano de eleição.

Blocos é a forma como são feitos tijolos e tijolos é o que se usa para fazer os blocos acéfalos que são formados anualmente nas salas de aula e agora ainda mais com este formato novo. Parece que Roger Waters estava certo, pois se for assim, “We don’t need no education”.

 

O culpado não sou eu

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O culpado não sou eu

Maurício Fernando Bozatski

Há tempos atrás, neste blog (http://mauriciofernando.wordpress.com/2009/04/05/crise-economica-e-ambiental-o-culpado-sou-eu/), quando me referi à crise e econômica e ambiental publiquei um texto intitulado “o culpado sou eu”. Com tal texto expressei a ideia de que o modo consumista com o qual a sociedade se estrutura, sociedade da qual faço parte, é o principal responsável pelas crises que o mundo atravessava e continua sofrendo nos dias atuais.

Porém, nesta semana foi amplamente divulgado pela mídia o caso de três adolescentes que fizeram sexo no banheiro de um colégio público em Curitiba. Via de regra, com apenas algumas diferenças sutis de estilo, os jornais da televisão procuram entender em que ponto a família está falhando e qual a responsabilidade da escola em casos como estes, que foi classificado pelo jornal Paraná TV da Rede Globo como sendo “um caso absurdo” que serve de alerta para todos os pais e educadores.

Pois bem, a TV nos diz que o caso serve de alerta apenas para os pais e para os educadores, mas será que são apenas estes os sujeitos envolvidos e responsáveis por tais problemas acontecerem na escola? O fato aconteceu durante o horário de aula, e o referido jornal se pergunta “onde a família está falhando e qual é a responsabilidade da escola?”. De fato alguém está falhando quando crianças de 13 anos fazem sexo no banheiro, todavia, o Paraná TV aponta dois prováveis culpados apenas, a família e a escola. E ela própria, a mídia, não tem culpa nenhuma?

Como professor há cinco anos e tendo como alunos adolescentes e vivendo diariamente o ambiente escolar respondo ao jornal, que convida a população a discutir e entender o fato, que a culpa pode até ser da família, por deixar seus filhos assistirem a certos canais de televisão, mas nunca alguém poderá dizer que a culpa é da escola, a qual como professor eu represento.

A mídia, através da catarse e da exploração estética, cria uma cultura de massa acrítica que assimila o modelo de existência e o vive sem refletir. Verifique-se o que é veiculado na programação da mesma rede de televisão que acusa apenas a família e a escola. Na trilha sonora da novela Caminho das Índias há duas músicas muito educativas. Uma delas se chama “ela disse” do cantor Marcelo D2 e na letra desta música observa-se apologia ao uso de drogas e incitação ao sexo sem compromisso. Citando D2 “E não importa se é de noite ou de dia, vagabundo com estilo é sempre na picadilha. (…) Aí foi, uma taça de vinho, sem problema algum, Vai ficando zonzinho e aperta mais um. (…) Muito tesão, pouco compromisso.” A outra música se chama “você não vale nada” da Banda Calcinha Preta. Além do próprio nome da banda e do aspecto de que a coreografia dos cantores envolve lingeries agitadas no ar e do próprio nome da música em questão, há na letra a seguinte frase “Já fiz de quase tudo tentando te esquecer, vendo a hora morrer não posso me acabar na mão”.

Ou seja, incita-se os adolescentes a não se masturbarem quando sentem-se impelidos a isso, mas a fazer o ato sexual em si. Esta música, não obstante ser tocada todas as noites na novela, foi apresenta no programa do Faustão que mostra semanalmente mulheres que dançam sensualmente no plano de fundo de todas as atrações e até no programa da “rainha dos baixinhos”, isto mesmo, a Banda Calcinha Preta foi parar até no programa da Xuxa em que a platéia é composta em sua maioria por crianças. E ainda há a telenovela Malhação, no ar desde 1995, que mostra como não respeitar professores em sala de aula e como namorar escondido nas dependências da escola.

A mídia conseguiu atingir seu propósito ao transformar quase todos os cidadãos da sociedade em pessoas sexualmente ativas, independente da sua idade, pois são estes que consomem mais e por decorrência dão mais lucro para o sistema econômico atual que é apoiado no consumo. Consumo este que é promovido e estimulado quase que integralmente pela mídia, sobretudo pelas grandes redes de televisão abertas.

Neste caso do sexo no banheiro da escola, mesmo que em horário de aula, a mídia terá que me desculpar, e penso que falo por todos os educadores, mas o culpado não sou eu.

Filosofia e Sociologia, agora é obrigatório!

Filosofia e Sociologia voltam ao Ensino Médio!

Filosofia e Sociologia voltam ao Ensino Médio!

Jornal da Manhã – jmnews.com.br

Filosofia e Sociologia, agora é obrigatório!

 

Após anos de discussão [e reflexão] elas voltam a fazer parte da grade curricular

 

Publicado em: 06/09/2009 00:00

 

Talita Moretto

 Atraente, instigante e misteriosa. A Filosofia reúne características curiosas que levam os menos assíduos leitores a refletirem sobre os porquês que envolvem o seu mundo.

 Do grego philos = que ama, combinado com sophia = sabedoria. Quem ama a sabedoria quer conhecer. Filosofia é a investigação crítica e racional dos princípios fundamentais relacionados ao mundo e ao homem. É para ser vivida, estudada, e não memorizada ou decorada. O saber é construído passo a passo, ouvindo, lendo, refletindo, experienciando, debatendo, explicando, pondo à prova.

 A trajetória da Filosofia no Brasil é longa, foi um reflexo do pensamento das escolas estrangeiras, adaptadas a nossa realidade cultural e social. A partir de 1964 ela desaparece das matrizes curriculares. Em 1985, com a reabertura política, somado a todo processo histórico, começa uma nova reflexão a respeito do ensino dessa disciplina. Em 2004 se realiza o primeiro concurso para professores, tanto de Filosofia quanto de Sociologia, mas somente em 2 de junho de 2008 é que foi sancionada a lei nº 11.684 que instituiu as duas disciplinas como componentes do currículo oficial das escolas de Ensino Médio em todo território nacional.

 ”Essa volta da Filosofia vai causar um impacto positivo no âmbito do Ensino Médio, pois os alunos, acostumados a uma educação positivista e voltada para a assimilação de conteúdos acrítica, agora serão confrontados a refletir acerca das informações que lhes são repassadas”, afirma o coordenador do curso de Filosofia da Faculdade Santa’Ana, Maurício Bozatski.

 Para René Descartes, a Filosofia é o estudo da sabedoria. Ela é a ciência da ciência em geral sob olhar de Johann Gottlieb Fichte. Uma crítica dos valores, das crenças, das instituições, dos costumes, das políticas, é o que acredita John Dewey. Mas nada é tão confortável quanto a descrição de Bertrand Russell: “A definição de “filosofia” variará segundo a filosofia que é adotada. A filosofia origina-se de uma tentativa obstinada de atingir o conhecimento real. Aquilo que passa por conhecimento, na vida comum, padece de três defeitos: é convencido, incerto e, em si mesmo, contraditório”.

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 > A Sociologia fez parte dos currículos escolares, de maneira alternada, até o golpe de 1964. Por ser uma ciência que se caracteriza pela análise e reflexão desde seu nascimento, no século 19, o governo militar retirou a disciplina dos currículos, junto com a Filosofia. Em 1979, quando do processo de abertura política no Brasil, discussões sobre o novo papel da educação escolar trouxeram à tona a importância da Sociologia para dar conta da formação dos novos cidadãos que a sociedade necessitava. 

 > A presença da Sociologia no Brasil se dá a partir de sua introdução como disciplina escolar no Ensino Médio. Porém, ela ainda não se consolidou como disciplina, bem como não chegou a um conjunto mínimo de conteúdos sobre os quais haja unanimidade. O que merece destaque é que sempre nos conteúdos de Sociologia estão presentes temas ligados à política, vida comunitária, partidos políticos e eleições. Ela pode contribuir na preparação para a cidadania.

Quando até os tolos se decepcionam

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Quando até os tolos se decepcionam

Maurício Fernando Bozatski

Os recentes acontecimentos no Senado Federal desvelam uma evidência que muitos românticos saudosistas relutam em enxergar, mesmo que isto esteja exposto e dançando diante de suas barbas. Que evidência seria esta? A de que aqueles que se autoposicionam na esquerda de alguma coisa não percebem que na política brasileira existe apenas uma orientação: a neoliberal, a mesma iniciada com o processo das Diretas, a mesma que está vendendo a Amazônia, e que nunca muda, pois beneficia a todos com suntuosos banquetes ou com sobras frias, mas ainda assim engorduradas.

Por mais que se coloque no governo uma figura construída para agradar todos os membros da corte. Das prostitutas, passando pelos príncipes, até chegar aos bobos que carregam bandeiras vermelhas e entopem os departamentos de história e sociologia no país afora, vestindo seus trajes propositadamente rotos e suas barbas estrategicamente malfeitas, nada muda. Aliás, mudam-se os discursos, mas mantêm-se os atos e intenções, tendo cinco ou quatro dedos nas mãos.

O trágico é ver senadores, deputados e todo tipo de gente iludida desesperada ao ver o seu Guru bancar o Presidente do Senado, apesar de um mar de lamas e de evidências. Guru cuja imagem foi talhada sob o cinzel dos marqueteiros, desde sua origem questionável como líder dos metalúrgicos que insurgia as revoluções, mas fugia antes dos confrontos, até as eleições perdidas e, enfim, obtendo o êxito sobre o demônio capitalista.

Entre abraços com os vizinhos, também barbudos, e beijos com os detentores do capital, o guru dos “bandeiras vermelhas” toma atitudes que denotam o compromisso assumido na encruzilhada em troca do tão desejado poder. E os mais cegos pela ideologia religiosa simbolizada pela cruz formada pelo martelo e pela foice, e pela promessa de um paraíso na terra, também plena de santos e mártires, desde as estepes da Sibéria até as praias do Caribe, não conseguiam ver, por limitação, ignorância ou ingenuidade, que a suposta democracia do partido salvador da pátria não passava de um teatro encenado nas platéias do Planalto Central.

Chega a dar a pena ver um Senador descontrolado com um cartão vermelho na mão, desmoralizado para todo o sempre, pois a história não costuma perdoar os imbecis, vendo-se no espelho sem mais ver o rosto imaginário forjado na Revolução de 1917, em detrimento da verdadeira imagem nefasta representada por este governo nacional, que se assemelha muito ao retrato de Dorian Gray.

Mas todas as pessoas lúcidas deste país conheciam Dorian Gray e seu retrato, menos o próprio, que ao se ver, esfacelou-se. Assim, o partido da situação vai se desintegrando, os moderados saem, os imbecis não entendem e os canalhas permanecem,  pois vislumbram mais oito anos de sustento nas vastas tetas desta leitoa gorda de impostos exorbitantes e suja pela corrupção pujante que pode ser encontrada nos três poderes.

Atônitos, alguns barbudos já citam a Bíblia, outros inventam novas siglas, e há ainda os que se entrincheiram junto aos soldados do meio-ambiente. Tudo inútil, pois até os mais acomodados já não querem mais bolsas paliativas; até os mais inseguros já não querem mais cotas; até os mais cansados já não desejam os cargos espúrios e fantasmagóricos que pululam em todos os recantos desta terra onde se plantando tudo dá.

É certo que o projeto iniciado com as Revoluções Industrial e Francesa; com o Iluminismo e com o seu primogênito, o Positivismo, vai continuar, sobretudo nestes tristes trópicos, independentemente das siglas, da minha ou de sua vontade. Contudo, parece que nos próximos anos, como professor, eu nunca mais terei que ouvir de um adolescente que “estudar é inútil, pois até o guru dos intelectuais da bandeira vermelha é analfabeto”.

O chororô dos pessimistas

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O chororô dos pessimistas

Maurício Fernando Bozatski

Uma das coisas que mais me marcou quando fiz minha graduação foi o pessimismo apresentado por alguns colegas. Fui da primeira turma de Filosofia da UNICENTRO de Guarapuava que se iniciou em 2001. Foi meu primeiro curso superior numa sala cheia de gente já formada, advogados, pedagogos, sociólogos, economistas, matemáticos e muitos historiadores. É claro que de cara fui rotulado por ser o mais jovem, mas já nas primeiras aulas demonstrei meu potencial e a capacidade de correr atrás do que eu não sabia. Passava o dia estudando quando podia. Tornei-me bolsista em três projetos, fui monitor e fiz um excelente curso, conheço muito da história da filosofia e qualquer ex-professor meu pode atestar que eu era muito esforçado. Passei por dificuldades? Claro, mas como dizia meu professor Waldemar Feller, “o banheiro entupido da casa a gente não mostra para as visitas”.

Porém, enquanto eu procurava aprender o máximo possível, pois era para isso que eu estava lá, os meus colegas envolvidos com atividades políticas, representantes do DCE e todo tipo de gente de orientação esquerdista apenas reclamava da vida e de todos os projetos que se apresentavam em qualquer esfera política, fosse na universidade, na cidade, no estado, no país ou no mundo. Todos eles de alguma forma trabalhavam como assessores de vereadores, ou nos balcões da universidade onde foram colocados por gentileza de algum professor que era o guru dos camaradas da bandeira vermelha.

Para eles nada nunca estava ou seria bom, a não ser eles mesmos no poder. Trabalhar não era o caminho, pois a classe dominante sempre dominaria; estudar não era necessário, pois aparentemente eles já conheciam um livro que resumia toda a ciência e história passada e futuro do mundo, que era o Capital, e assim fizeram, em alguns casos, mais uma graduação pífia e continuaram suas carreiras (acadêmicas e profissionais) mediocremente. Pois para azar destes não existia na UNICENTRO um mestrado em filosofia no qual os mesmos professores gurus e defensores da velha esquerda poderiam enfiá-los goela abaixo.

Eu, humildemente, continuei. Mudei-me para Ponta Grossa visando um mestrado em Curitiba, Santa Catarina ou em São Paulo, tornei-me professor e trabalho muito desde então, cerca de 70 horas por semana, presencialmente, nas instituições onde leciono, e muito mais em casa. Terminei meu mestrado trabalhando e estudando, fui o primeiro a defender numa turma de vinte, em que dezoito apenas estudavam. Tornei-me coordenador de um curso superior, o qual fui o responsável pela criação do projeto, e hoje continuo otimista e acreditando no meu esforço e trabalho. Pois até o final do ano lançarei dois livros didáticos de filosofia por uma grande editora nacional.

Recentemente voltei à UNICENTRO para convidar alguns bons ex-professores para participar da Semana de Filosofia que estou organizando. Reencontrei antigos colegas, no mesmo lugar, do mesmo jeito, ainda reclamando da vida. Mas enfim, não quero que minha vida seja exemplo para ninguém. Mas sugiro que todos assistam ao filme “Os piratas do Vale do Silício”, que mostra um Bill Gates e um Steve Jobs trabalhando e muito (cerca de 90 horas por semana), para construírem o que construíram, e então deixarem a classe dominada rumo ao topo da classe dominante nesta eterna e imbecil luta de classes eleita por alguns. Não há luta de classes, há apenas o homem superando-se a si mesmo dia após dia.

Meus camaradas e companheiros, um único projeto, um único posto de trabalho, não vai resolver a vida de todo mundo, até porque tem gente neste mundo que não faz nada para ter a vida resolvida, mas enfim já é alguma coisa. E, portanto, qualquer boa iniciativa neste mundo merece todo nosso apoio. Mas se você acha isso pouco, então procure outras alternativas no intuito de melhorar, pois como disse Millôr Fernandes, “tudo dá certo, menos reclamar”.

Blogosfera JM – espaço para troca de ideais

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Publicado em: 09/08/2009 00:00 – Diego Antonelli

Um espaço plural, onde diferentes ideias, pontos de vista e temas são tratados sem restrição ou preconceito. Um local que praticamente tornou-se ponto de encontro para discutir temas referentes a Ponta Grossa. A ‘Blogosfera JM’, disponível no Portal JMNews, é um espaço público que reúne, ao todo, 45 blogues sobre os mais variados assuntos: música, legislação, cultura local, cenas do dia a dia, história da cidade, religião, saúde… “É um espaço que proporciona a pluralidade de informações, de pontos de vista que tratam sobre diferentes cenários da cidade”, afirma o blogueiro Maurício Bozatski, dono do blog ‘Linguagem e Mundo’ no portal do Jornal da Manhã.

É neste espaço virtual que distintas realidades se encontram e passam a servir de referência aos internautas de plantão. “Eu mesmo descobri que não precisava pagar um tipo de imposto, porque já estava pagando, através do blog Papo Legal (do advogado Sandro Bandeira)”, relata Maurício.

O jornalista que gerencia o site do Jornal da Manhã, Danilo Kossoski, acredita que o diferencial de possuir um blog em um portal de jornal é a própria visibilidade. “Diferentes pessoas que acessam o site do jornal vão ter acesso a todos os blogues. Como as postagens recentes são expostas na página inicial do portal, o jornal convida os leitores para lerem os textos, direcionando para um público mais amplo”, explica.

No entanto, Kossoski relata que muitas pessoas não perceberam a pluralidade e visibilidade que a ‘Blogosfera’ proporciona aos internautas. “Quem não criou um blog ou o abandonou, não percebeu a visibilidade e o amplo espaço criado para debater assuntos da cidade”, diz.

Nem somente de textos é que sobrevivem os blogues do JM. Vídeos e fotos também são postados. Há blogues como o ‘Espetacolhar: a cidade que não é vista’, do jornalista Christopher Eudes, que postam apenas imagens. “São registros da cidade, que mostram pontos que chamam a atenção ou diferentes cenários através de outro ângulo”, fala Kossoski.

A blogosfera é, como o próprio gerenciador do portal resume, ‘uma editoria do próprio internauta’. “A pessoa cria um espaço onde ela posta o assunto de seu interesse, sob sua responsabilidade, sem nenhum filtro ou interferência do Jornal”, afirma.

Sarney e a Internet

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Sarney e a Internet

Maurício Fernando Bozatski

Aquele que acessou qualquer tipo de mídia (TV; Rádio; Jornal; Internet ou Smartphone) nos últimos dias deparou-se com notícias que oscilam entre a evolução da epidemia da gripe e a crise no Senado Federal. No entanto, se o efeito da nova gripe na sociedade é previsível: ela está nos isolando do convívio social; no Senado parece que a cisterna não tem fundo. A Folha de São Paulo desta sexta-feira (07/08/09) brinda-nos com um artigo assinado pelo ainda presidente do Senado José Sarney.

O artigo intitulado “Paus-d’arco em flor” começa com uma análise sociológica sobre os efeitos da luta política moderna nas sociedades pós-industriais, passa por Marx, autor que eu duvido que o Sarney tenha lido, mas que sempre cabe em qualquer texto político, mesmo que seja para falar mal, e chega a uma análise preciosa da relação entre o mundo atual e a circulação da informação.

Depois de afirmar que “hoje as ruas não têm mais gente, e sim uma massa que está preocupada com transporte, emprego, renda e tempo para um pequeno lazer”, Sarney declara que não existem mais classes, pois hoje a mídia não consegue mais controlar o fluxo de informações. No entanto, o que é mais notório neste texto é que o famigerado ex-atual Presidente de alguma coisa afirma que a facilidade que a Internet possui para veicular informações, sua agilidade, sua velocidade, e o fato de que ela descentraliza o papel dos grandes veículos que faziam a fama dos Cidadãos Kane, é nociva para a política pois não é mais possível se saber qual é a “verdade” (verdade dele).

Esta análise é típica de um político ultrapassado, fruto de um dos maiores acidentes no percurso político na história do país, que no fluxo de uma nova sociedade emergente, estabelecida sobre a base das tecnologias de informação e da comunicação, não consegue entender que pessoas possam pensar livremente, autonomamente, sem a necessidade de gurus ou da impressa marrom para criar conceitos e rótulos ineficientes. Sarney reclama da Internet e de telefones celulares que informam o usuário instantaneamente sobre as notícias de seu clube de futebol, sobre o horóscopo e, ocasionalmente, sobre as falcatruas na política, talvez porque agora percebeu que não basta agradar aos caciques da mídia para formar a opinião pública, mas que é preciso agir ética e honestamente, pois com a facilidade em se emitir e transmitir ideias e notícias, no fundo a única coisa que importa é o homem e seus atos, independentemente de suas intenções e seus aliados.

Decisivamente Sarney está errado em suas obscuras reflexões, pois talvez este seja um momento ímpar na história. A “massa das ruas” nunca foi tão individual e marcada pela personalidade de cada um, e a responsável por isso é a Internet. Graças a ela hoje nosso trabalho tem cada vez mais a cara do lazer, graças a ela podemos superar a barreira do espaço e dos transportes, podemos trabalhar em dois lugares ao mesmo tempo, e podemos por fim, saber quais atos secretos e indiscretos se passam no Senado Federal. Vislumbrando tudo isso Sarney e outros decrépitos reclamam, pois sabem que neste admirável mundo novo, políticos da estirpe deles dificilmente irão se reeleger no futuro, mesmo nesta nossa democracia, cheia de defeitos, mas que ainda vale a pena, mesmo que o pão seja caro e a felicidade pequena.

Mais estranho que a ficção

50 c Piece - Jean-Michel Basquiat

50 c Piece - Jean-Michel Basquiat

Mais estranho que a ficção

Maurício Fernando Bozatski


Definitivamente a razão chegou ao seu eclipse, e o motivo para tal afirmação é a recente epidemia da nova gripe. Não é possível saber ao certo qual a dimensão desta doença tão antiga, com a qual convivemos há muito tempo nestes trópicos, desde a chegada dos espanhóis nos séculos XV e XVI, revestida com uma nova roupagem colorida pelo DNA dos suínos e das aves.

Os pessimistas afirmam o desencadear de uma teoria da conspiração, na qual laboratórios ávidos por lucros teriam sintetizado este monstruoso vírus. E ainda desatam a falar que os médicos recusam-se a atender os pacientes porque conhecem a real dimensão do perigo. E ainda que as autoridades estão escondendo os fatos da população no intuito de não fomentarem o pânico. Isso é que os e-mails enviados em massa por amigos e estranhos dizem em tom tão apocalíptico que dá até medo de pegar o tal vírus pela internet.

Já os otimistas continuam a vida normalmente, dizendo que se trata apenas de mais um resfriado comum e que as autoridades estão fazendo todo este alarde em torno da questão para esconder manobras que ocorrem nos meandros do poder.

Mesmo que você não tenda para nenhum dos extremos, é inegável que a sucessão dos fatos, desde os primeiros sintomas no México até a morte do vizinho por razões desconhecidas, nos causa uma mudança sutil, mas importante, de consciência. Agora, quando andamos pelas ruas olhamos para todas as pessoas como se elas fossem potenciais inimigos. Cuidamo-nos para não nos esbarrarmos ocasionalmente; Desconfiamos do troco que recebemos; Evitamos corrimões; Até na igreja o tradicional “saudai-vos uns aos outros” agora soa como um castigo, e não como uma benção. Evitamos o cinema, já os teatros e os concertos não precisamos evitar porque, por sorte, por estas bandas eles quase nunca ocorrem. Evitamos o restaurante por quilo, onde todos partilham dos mesmos pegadores; ficamos com medo de andar de ônibus e de se sentar em lugares quentes.

O efeito mais inesperado desta epidemia é que voltamos o nosso olhar para o invisível, e o que vemos lá não nos agrada. Despidos de toda a ciência e tecnologia nos sentimos sós, desamparados, com medo da vida e de viver. De tanto as lavar com sabão e álcool nossas mãos se tornaram muito sensíveis, e até o toque seco do teclado do computador parece estranho. Enfim, depois de toda uma vida cercados pelos artifícios da técnica nos encontramos com nós mesmos, e o que vemos é uma criatura frágil, amedrontada, que pode facilmente ser abatida por um vírus. Distanciamos-nos tanto do mundo natural devido à aplicação de nossa razão sobre ele, que hoje perdemos o rumo. Até cancelamos as aulas – que é o espaço onde a razão é cultivada –, ao menor sinal de que algo está ocorrendo independente do controle e do desejo do humano, animal racional. Animal que quase sempre esquece que também é parte de uma natureza trágica, assombrosa, espantosa e também maravilhosa que é muito maior que o mundo de uma única espécie.

O Espírito das Leis

Moisés con las tablas de la ley - Harmennsz van Rijn Rembrandt

Moisés con las tablas de la ley - Harmennsz van Rijn Rembrandt

 

O Espírito das Leis

 

 

Maurício Fernando Bozatski

 

 

Por que o ser humano precisa de leis para viver em comunidade? A esta pergunta podemos confrontar as idéias do filósofo Jean-Jacques Rousseau para quem o homem é bom em estado de natureza, mas em sociedade torna-se um depravado, e é por esta razão que num meio comunitário o homem precisa de leis para regulamentar a sua conduta junto aos demais seres humanos. Os homens, segundo Rousseau, acatam o contrato social porque, além de já nascerem em comunidade, optam por alienar sua liberdade em troca de vivenciar um nível maior de conforto que pode ser proporcionado pela vida comunitária. Em estado natural, nesta perspectiva rousseauniana, o homem vive uma moral também natural que não precisa ser aprendida como é o caso das normas artificiais de uma sociedade. Já outro pensador também importante, Thomas Hobbes, pensava exatamente o oposto. Para Hobbes o homem é mau por natureza, “o homem é o lobo do próprio homem”, e assim, apenas um estado constituído pode normatizar a conduta dos humanos em comunidade para que os mesmos possam viver em paz. Os homens aceitam este contrato porque temem, sobretudo, a morte violenta, e assim a sociedade seria uma forma de evitá-la.

Mas enfim, qual é o espírito das leis? Porque o ser humano precisa delas ao ponto de não saber viver sem as mesmas? De acordo com as perspectivas filosóficas acima, os homens precisam de leis porque não sabem viver em comunidade, e então a lei é uma forma de educá-los, ou, por outro lado, porque a sociedade é artificial, então as leis existem para adequar o mundo social ao mundo do homem. Contudo, apesar de diametralmente opostas, estas visões de mundo apontam para o mesmo aspecto, em algum determinado momento o homem é mau. Portanto, as existem leis pelos maus e para os maus. Se a sociedade fosse constituída apenas por pessoas de boa índole, os bancos não precisariam de portas eletrônicas, as casas não precisariam de muros e, o que parece mais significativo sobre as discussões a respeito do trânsito, nas vias não seria necessário haver fiscalização. É interessante observar a ironia de que no Brasil, e de modo mais específico no Paraná, criou-se uma grande comoção acerca da violência no trânsito depois que um legislador supostamente descumpriu as leis.

Conclusivamente, o aspecto de haver leis implica que há maldade, no sentido de ausência de boa vontade. E o mais alarmante além da existência das leis em si, é o fato de que é necessário haver fiscais ou policiais para garantir que os homens cumpram-nas. Portanto, onde houver leis, ali há um problema com o qual a sociedade não sabe lidar, e então se cria uma lei para torná-lo proibido. E assim, as leis que, para Hobbes, salvariam os homens da morte violenta, criam um estado onde a morte violenta é a lei, basta olharmos para tudo o que é proibido, como acelerar além dos limites, o tráfico de drogas e vários outros segmentos da sociedade. Contudo, numa coisa Hobbes e Rousseau tinham razão, onde houver leis, ali haverá, silenciosamente, o espírito de alguma maldade.

Sociedade sem antíteses

La traición de las imágenes (Esto no es una pipa) - René François Ghislain Magritte

La traición de las imágenes (Esto no es una pipa) - René François Ghislain Magritte

 

Sociedade sem antíteses

 

 

Maurício Fernando Bozatski

 

 

 

Recentemente assisti ao filme A Onda (Die Welle; dir. Dennis Gansel) e imaginei como de fato os totalitarismos ganham força em meio a uma sociedade. Tudo começa por uma questão ideológica que se cristaliza em forma de dogma. Neste filme, um professor de História do Ensino Médio decide fazer uma experiência com seus alunos para demonstrar na prática como as atitudes sociais mecânicas e irrefletidas, petrificadas pela tradição e legitimadas pelo discurso, podem fazer com que um grupo de adolescentes desenvolva uma mentalidade autoritária nos moldes do nazismo sem ao menos se dar conta disto. A supremacia do grupo sobre o indivíduo e a quantidade negando a qualidade são os aspectos mais apreciados por governantes que pretendem sustentarem-se no poder à custa do trabalho e sacrifício de um povo que segue os ideais e ordens de um comandante populista que se veste com as cores de um suposto progresso que beneficia a todos, indistintamente.

A versão mais conhecida do método dialético pressupõe que o desenvolvimento de uma mentalidade científica passe por um sistema de reflexão que envolve três momentos distintos, não obstante, totalmente relacionados. Primeiro, é preciso conhecer ou apresentar uma tese que afirme ou refute algum aspecto da realidade. Depois, a esta tese é necessário opor uma antítese que opere como uma visão oposta à tese e que apresente uma versão distinta sobre o mesmo fato, e por fim, depois de se ponderar sobre os aspectos positivos e negativos da tese e da antítese, deve-se elaborar uma síntese destas idéias. Tal síntese pode consistir na re-afirmaçao da tese ou na negação da mesma. A síntese ainda pode ser um híbrido entre a tese e a antítese, contudo, o mais importante no método dialético é que a toda tese se oponha uma antítese, senão não há possibilidade de evolução das ideias ou de se estabelecer alguma convicção sobre algum conhecimento já constituído.

O problema de nossa sociedade atual (e talvez de todas as sociedades que já existiram, pois seria ingenuidade acreditar que no passado as coisas eram diferentes simplesmente porque estão distantes de nós) é que as pessoas anseiam pela mentalidade de grupo e pelas verdades petrificadas pela tradição. A busca dos indivíduos não é para constituir uma identidade diferente da existente ou de elaborar visões opostas aos grupos pré-organizados, mas, simplesmente, a grande maioria das pessoas prefere empreender seus esforços apenas para se inserir nos grupos já estabelecidos. E, então, uma vez fazendo parte deles, continuar sua história metodologicamente perneta, pois desprovida de uma antítese que pondere acerca das verdades praticadas por este grupo de pessoas.

Um exemplo atual disso talvez seja a questão do aquecimento global. Gerações inteiras estão crescendo atualmente com a visão de que o aumento de temperatura do planeta possui suas raízes nas ações antrópicas, e assim, o discurso sobre o ambientalismo hoje é centro gravitacional de campanhas políticas, congressos sobre economia e serve até mesmo como base para engendrar uma nova mentalidade religiosa. Talvez o aquecimento global tenha sido acelerado pela ação humana, mas existem estudos sérios que demonstram o contrário, que o gás carbônico não é causa do agravamento do efeito estufa, mas apenas conseqüência dele, e que o clima do planeta está apenas perfazendo um ciclo natural em que as temperaturas oscilam continuamente entre eras glaciais e temperaturas de aridez ao longo dos séculos. Com este exemplo não se está afirmando ou sugerindo qualquer um dos discursos, mas apenas alertando para o fato que o assunto do aquecimento global hoje transcende os limites da natureza e do clima, e estampa bandeiras de diversas ordens, o que, em certo sentido, é o combustível de todos os totalitarismos.

A mentalidade dos grupos sufoca todos os âmbitos da sociedade atual. Ser homem de pele branca e heterossexual, nos dias atuais, é uma espécie de fardo a ser carregado, pois esta classe de pessoas é o inimigo instituído de todos os grupos que em tese figuram como minorias, assim, os que historicamente foram os “donos do sistema”, hoje se sentem como um leão na cova de daniéis. A sociedade não aceita que pessoas existam hoje sem que carreguem rótulos que as classifiquem em grupos de teses estabelecidas para as quais qualquer antítese é vista como heresia. Na política, na religião, no discurso ideológico, no meio-ambiente e em praticamente todos os setores da sociedade não se aceitam antíteses, talvez porque isto custe um exercício de reflexão sobre o movimento dialético, e o estranho é que não gostamos de pensar. Preferimos receitas prontas, como se tudo na vida fosse um grande banquete, e assim, oito anos de um governo populista não basta, pois para isto também não temos nenhuma antítese, e, desta forma, o discurso que procura legitimar um terceiro mandato, inconstitucional e antidemocrático até os ossos, não soa tão estranho para o ouvido de quase nenhum cidadão, que em tese, se diz democrata.

O declínio de nós mesmos

 

Calavera - Vincent Van Gogh

Calavera - Vincent Van Gogh

 

 

O declínio de nós mesmos

 

Maurício Fernando Bozatski

 

 

Certa vez eu li o livro “O declínio do Ocidente” de Oswald Spengler, no qual, em suma, o autor reconhece a ascendência morfológica da vida sobre a razão e do dinheiro e da máquina sobre a cultura e o indivíduo. Este livro atraiu intelectuais revoltados com os Estados Unidos por ser uma ‘civilização comercial’ puritana. Nos anos trinta do século XX, o texto de Spengler foi escolhido como um dos dez ‘livros que mudaram nossa mente’.

Segundo o declínio do Ocidente a cultura é cíclica e é possível basear-se no declínio de outras civilizações que outrora já foram grandes modelos hegemônicos da cultura e da economia para prever o futuro da nossa. Pensemos no Antigo Egito e nos seus faraós e deuses cujas reminiscências arqueológicas figuram hoje apenas como atração turística e intelectual para arqueólogos e historiadores.  Lembremos da Grécia Antiga e seu legado que malmente compreendemos, pois a ideia de uma democracia numa cidade sustentada por escravos é estranha até mesmo para o mais dogmático dentre nós que acredita viver em uma democracia. Voltemos o olhar para o Império Romano e veremos um Direito estruturado sobre doze tábuas apoiadas muito mais nos bacanais e nas areias ensangüentadas das arenas de gladiatura do que no mármore do senado republicano. Enfim, não há modelo cultural ou progresso civilizatório que dure para sempre, contudo, os vícios parecem se repetir indefinidamente.

O fato de eu ter completado vinte e nove de existência na semana passada me fez pensar que em meio aos apertos de mãos e abraços de congratulações eu estava de fato dando mais um passo em direção ao meu declínio pessoal, e então me pus a relembrar onde eu estava aos dezenove e aos nove anos de idade. Minha memória sempre respondeu aos meus chamados insólitos, contudo, desta vez, eu apenas recordei onde estava no meu aniversário de dezenove anos. Lembrei que estava pescando e tomei uma grande chuva que me fez sair às pressas de um pesqueiro no Rio São João. A chuva também me fez contrair um parasita que deve ter descido em forma de ovo que algum mosquito havia depositado na copa de alguma árvore e que se alojou em meu couro cabeludo. Sobre o aniversário de nove anos eu não me lembro de nada. Foi então que fui pesquisar o que acontecia no Brasil e no mundo em 1989, e foi esta pesquisa que me fez recordar de Spengler.

Dentre os fatos mais notáveis de 1989, cabe destacar a criação da World Wide Web pelo físico inglês Tim Berners-Lee; Um avião da Varig cai na Amazônia;  São Francisco é atingida por um grande terremoto; A extinta União Soviética deixa o Afeganistão depois de nove anos de ocupação; A rede de televisão Fox estréia a primeira temporada dos Simpsons; O presidente George W. S. Bush se encontra com o presidente Gorbatchov da União Soviética na costa de Malta, no que seria o prenúncio do final da Guerra Fria; A sonda Voyager 2 chega a Netuno; Israelenses e muçulmanos trocam hostilidades; Na China, estudantes protestavam contra o regime socialista. O Brasil passava por sua primeira eleição presidencial democrática depois da ditadura militar; José Sarney era o presidente do Brasil; Fernando Collor seria eleito presidente vencendo Lula no segundo turno.

Já em 2009, não é preciso fazer uma pesquisa, mas apenas lembrar-se de alguns fatos. Um terremoto atingiu a Itália; Há tropas americanas ocupando o Afeganistão; A China continua socialista, mas os estudantes já não protestam, apenas os monges tibetanos fazem isso agora; A rede de televisão Fox estréia a vigésima temporada dos Simpsons; O presidente norte-americano Obama se encontra com o líder venezuelano Hugo Chavés, ganha um livro do Eduardo Galeano deste, no que pode ser o prenúncio do final da hostilidade entre os dois países; Israelenses e muçulmanos trocam hostilidades, cercos, tiros e embargos;  NASA lança a sonda Kepler no intuito de encontrar exoplanetas; A Google lança sua plataforma Street View para cidades brasileiras e portuguesas; A Cúpula das Américas termina com apenas uma assinatura no documento final; No Brasil, Lula é o presidente da República; José Sarney é o presidente do Senado e Fernando Collor é o presidente da Comissão de Infraestrutura.

Parece que nestes vinte anos as coisas tem se repetido ciclicamente e com exceção de alguns nomes, datas, lugares e cargos, tudo permanece o mesmo. Os mesmos poderes, os mesmos interesses, a mesma falsidade, as mesmas catástrofes, os mesmos anseios. Enfim, parece que Spengler estava certo, e de fato a vida excede a inteligência. Então nos próximos vinte anos vou me preocupar menos em entender o mundo e mais em vivê-lo. Pois, independentemente de minha vontade o mundo ocorre, as coisas se repetem e esta civilização e eu caminhamos rumo ao nosso declínio, apenas espero que o meu seja mais demorado que o dela.

 

 

Crise econômica e ambiental: o culpado sou eu

Homer Simpson

Homer Simpson

 

Crise econômica e ambiental: o culpado sou eu

 

Maurício Fernando Bozatski

 

Diante dos extremos o ser humano tende a reduzir todas as questões que originariamente são complexas em uma resposta simplista e normalmente tendenciosamente maniqueísta. É comum ouvirmos pela boca de doutos e idiotas que a crise econômica é culpa dos norte americanos, dos brancos de olhos azuis, dos bancos, do liberalismo ou até mesmo da conjunção dos planetas que é desfavorável para o momento. O mesmo costuma ocorrer quando se fala em crise ambiental. O aquecimento global é denunciado como o efeito do desmatamento da Amazônia, ou das emissões de carbono das indústrias dos países desenvolvidos, ou das emissões dos escapamentos dos automóveis ou da exploração pecuária e agrícola.

O objetivo destes arrazoamentos superficiais são sempre motivados pela mesma intenção: eximir totalmente a culpa daquele que fala. Pois quando eu afirmo que a causa da crise econômica está em um país distante e em seu estilo de vida consumista e em sua política econômica liberal eu me redimo. Pois com isso eu pretendo dizer que por mais que eu também, aqui em meu país e ao meu modo e de acordo com o poder de compra que tenho, consuma muito mais do que eu realmente necessite e fomente este sistema econômico monetarista pautado no lucro das corporações, através de meu modo de viver individualista e irracionalmente pautado na lógica do proveito próprio sobre o meu próximo, seja este o vizinho da casa ao lado ou o humano que viva na Oceania, então eu obtenho minha redenção, pois a culpa não é minha, mas dos americanos brancos e de olhos azuis.

Acreditar nisso é ignorar completamente a complexidade dos mercados globalizados. As corporações não têm pátria, e se acaso alguém tiver de pagar a conta desta crise, e já está pagando, este será o trabalhador sem nenhum poder de barganha, pois possui apenas sua força de trabalho física ou intelectual. As grandes empresas multinacionais dispensarão indistintamente qualquer um, sem levar em conta a cor de sua pele ou de seus olhos, se esta for a única forma de salvar seus lucros e o balanço de caixa.

Analogamente, quando falamos do meio ambiente e do aquecimento global costumamos apontar a razão deste destempero climático em lugares muito distantes de nossa realidade. Procuramos culpados por todos os lugares, menos no lugar onde nos encontramos. O fato de eu consumir carne bovina e fomentar a pecuária, que por sua vez promove o desmatamento, segundo a minha visão de mundo egoísta, não tem nenhuma relação com o desmatamento da Amazônia, e então, com a consciência tranqüila, no domingo à noite, depois de eu consumir no jantar o que sobrou do churrasco do almoço, eu uso a internet para denunciar o desmatamento de forma virtual, pois eu também, virtualmente, não sou culpado, apenas sou um justiceiro armado de mouse e banda larga.

Em suma, eu poderia citar estudos sérios e intermináveis para mostrar que todos somos responsáveis pelas crises que afetam o planeta, sejam elas de qualquer ordem. Contudo, prefiro usar o exemplo da família que melhor caracteriza o que somos no alvorecer do século XXI, me refiro aos Simpsons. Quem assistiu ao filme, deve recordar que todos em Springfield culpam o pobre Homer por deflagrar uma crise ambiental que acaba por isolar a cidade e levá-la ao colapso econômico. De fato é Homer quem coloca a última gota que é responsável pela xícara transbordar. Ele despeja um reservatório de fezes de porco em um lago muito poluído e o transforma num laboratório toxicamente destrutivo. Todos na cidade culpam-no e unem-se numa caçada medieval armados com tochas e rastelos rumo à casa de Homer com o objetivo de fazer justiça com as próprias mãos. No final Homer foge para o Alasca, mas lá descobre que precisa salvar a todos na cidade que havia deixado para trás, pois sem os outros ele também não era ninguém.

Extraindo o tom sarcástico e caricatural do desenho animado, nós também somos um pouco como Homer, que joga fezes no lago mesmo sabendo que ele está perigosamente poluído. No entanto, infelizmente somos muito mais parecidos com os cidadãos de Springfield, que se esquecem que o lago fora poluído em comunidade, e é indiferente quem acenderá o estopim, pois todos fomos os responsáveis por construir e armar esta bomba representada hoje pela economia e pelo clima.

Mas enfim, se alguém ainda deseja sentir-se confortável apontando o olho, a pele ou país do outro como a fonte da culpa, então também podem dizer que a culpa é minha, pois, compro muito mais do que preciso para consumir, consumo mais do que necessito para viver e vivo com muito mais do preciso para ser humano.

Médico ou monstro: O uso das novas tecnologias em sala de aula

Médico e Monstro

Médico e Monstro

Médico ou monstro: O uso das novas tecnologias em sala de aula

Maurício Fernando Bozatski

Das várias coisas estranhas neste mundo estranho, uma delas é desconcertante e paradoxal acima da média. Muitos dos avanços científicos e tecnológicos – não todos – aconteceram no âmbito da sala de aula, contudo, o professor é um dos poucos profissionais que pode hoje, no alvorecer do século XXI, exercer sua profissão exatamente da mesma forma como se fazia na Idade Média. É possível constatar nos ambientes escolares contemporâneos que muitos estabelecimentos de ensino não evoluíram muito desde a Escolástica, a não ser pelo tempero positivista que transformou o trivium e o quadrivium nas disciplinas conhecidas hoje, que desfilam cotidianamente puxadas pelas quatro aulas semanais de matemática e língua portuguesa diante dos olhares irrequietos e desatentos dos adolescentes.

 A tecnologia assume um papel decisivo na sociedades, sobretudo na sociedade atual. Não é possível imaginar uma simples compra em uma farmácia sem a mediação de planilhas eletrônicas de estoque associadas a uma rede de microcomputadores. Vivemos tão imersos em tecnologia que já não há tempo para saber quem são os grandes inventores da atualidade. Sabemos muito bem quem foi Leonardo da Vinci ou Thomas Edison, mas ignoramos completamente o nome dos inventores da televisão digital, do celular e do Air-bag. Isso significa que vivemos as tecnologias mas não às compreendemos. A evidência deste aspecto – que seria impensável na Grécia Antiga, o de usar uma tecnologia sem compreendê-la -, pode ser constatada no fato de que a maioria absoluta dos usuários de computadores , celulares 3G e I-podes ignora completamente quem é Steve Jobs, um dos principais responsáveis por essas inovações.

 Assim, há a preocupação de que as tecnologias, como a Internet, estão tornando as pessoas mais alienadas. Essa é a opinião de Mark Bauerlein, que escreveu um livro chamado “The Dumbest Generation” (A geração mais idiota), no qual apresenta a ideia de que a Internet faz com os jovens desenvolvam um imediatismo pernicioso ao processo de aprendizagem e que assimilem informações descontextualizadas que não resultam em conhecimentos seguros e sólidos.

 Por outro lado, há pensadores como Stephen Berlin Johnson nos Estados Unidos e Pedro Demo no Brasil que acreditam que o uso de tecnologias, como a Internet e videogames possuem o poder de facilitar a aprendizagem situada que pode fazer com que os jovens potencializem seu aparelho cognitivo ao ponto de se tornarem mais rápidos no raciocínio e mais eficientes no que diz respeito à memorização de informações, aspectos imprescindíveis para o florescimento de mentalidades criativas, elemento essencial para o sucesso no mundo do trabalho atual. O problema com a tecnologia neste caso advém do confronto de gerações, pois para os adolescentes as tecnologias são “naturais”, ao passo que para muitos professores são equivalentes a estranhos alienígenas. Isto resulta na perda do interesse pelo processo educativo por parte dos estudantes.

 A síntese destas opiniões nos faz refletir e chegar a algumas conclusões: 1) Os jovens não vão deixar de usar as tecnologias, pois elas são atrativas e interessantes; 2) Se os professores não usarem tecnologias em sala de aula, perderão o interesse da turma pelas suas aulas; 3) Se as tecnologias não forem usadas e aplicadas através de elucidações críticas, os jovens se alienarão pelo contato massivo que possuem com elas.

 Um dos escopos óbvios disto é que professores e alunos podem usar as tecnologias como instrumento investigativo, sem preconceito injustificados nem dogmatismo irrefletidos, aspecto que pode potencializar e melhorar muito o processo de ensino e aprendizagem. O giz e a lousa são uma espécie de tecnologia que, contudo, evoluíram, assim como todas as outras tecnologias antigas, e por isso hoje não são mais tão eficientes para atrair a atenção dos adolescentes como foram na Idade Média.

Educação: pirataria ou compromisso político?

Seaport at Sunset - Claude Le Lorrain - (Claude Gellée)

Seaport at Sunset - Claude Le Lorrain - (Claude Gellée)

Educação: pirataria ou compromisso político?

 

Publicado em: 05/03/2009 00:00 – Jornal da Manhã – jmnews.com.br

Lucia Helena B. do Valle*

O desabafo do professor Maurício Bozatski no texto “Os verdadeiros piratas do Caribe” (JM de ontem) nos motivou a refletir sobre aspectos presentes na nossa educação, onde a Praça Barão do Rio Branco, de certa forma, faz parte do cenário. Todos concordam que somos herdeiros da educação ocidental, iniciada na Grécia Antiga. Como herdeiros de valores éticos e morais e de toda uma ciência que tem lá seu berço, percebemos que estamos pirateando a educação, uma vez que aprendemos com os gregos que a educação dever ser integral, alimentando corpo e espírito.

Quanto à educação da alma de lá vieram a filosofia e com ela todas as demais ciências, porém fomos alijados de nossos filhos receberem a educação transmitida pela ciência mãe – a filosofia. Por décadas ela foi retirada do ensino médio, apesar de sua contribuição para a construção de sujeitos críticos e criativos, pelo fato de ela não corresponder aos interesses do governo repressor da ditadura. Hoje, ela está voltando aos currículos escolares, mas num contexto ainda obscuro, tal qual uma mãe que retorna ao lar como uma estranha e, apesar de ter gerado as demais ciências, volta para a escola sem este reconhecimento histórico. Isso é explicável, pois a maioria dos pais desta geração de estudantes, assim como os professores praticamente não tiveram contato com a filosofia, logo, não é de se admirar que ela volte para a escola como uma desconhecida. Fazer com que ela promova a integração das disciplinas dos currículos será um dos grandes desafios da mãe filosofia.

Mas a pirataria não para aí, pois no que se refere ao desenvolvimento do corpo, também herança dos gregos, pergunto – onde está o preparo para isso no ambiente educacional? Vamos retornar a praça, e lá encontramos uma tradicional escola pública que já formou honrados cidadãos, e que tem professores suando a camisa para contribuir com a formação de centenas de alunos para que estes possam fazer a diferença no cenário que todos os dias insiste em aparecer diante deles: os desordeiros, os usuários de drogas, os “nem aí com o respeito à natureza”, lembrados pelo prof. Maurício.

Agora, pasmem, enquanto nosso governo faz campanha para que o Brasil seja sede de uma olimpíada, onde os alunos deste tradicional colégio praticam exercícios físicos e esportivos? Não seria ali num colégio público o primeiro lugar para se investir antes de se pensar em sediar uma olimpíada? É inegável o ganho que se tem com a prática esportiva não só em relação à saúde física, mas, sobretudo, como exercício de disciplina, comportamento ético, companheirismo, enfim, para a construção da cidadania. Todavia, em pleno centro da cidade temos colégios praticamente sem espaço para o desenvolvimento de tais atividades.

O governo diz que não há recurso para tal demanda. E aí surge a grande contradição, comum numa sociedade onde a educação não é prioridade: uma praça pública em frente à escola carente de espaço, a qual é palco de usuários de drogas, desocupados, vendedores de produtos duvidosos, espaço para ensino e construção de tudo, menos de cidadania. De quem é a decisão sobre deixar os alunos presenciarem este cenário todos os dias das janelas da escola ou transformarem este espaço num lugar onde os alunos possam realmente ser herdeiros de uma educação integral que se ocupa tanto do corpo quanto da alma?

Está passado da hora de pensarmos num novo projeto para a Praça Barão do Rio Branco, para que possamos atravessá-la com a alma tranquila ao substituirmos o doloroso cenário atual por cenas de uma educação que cuida do que há de mais valioso – nossa juventude. Será um palco para realização de atividades que, sem dúvida, será uma grandiosa contribuição para manter os jovens longe de situações de risco as quais, infelizmente, pairam todos os dias frente ao ilustre Colégio Regente Feijó.

*Acadêmica do curso de Filosofia do Instituto de Ensino Superior Sant’Ana.

Os verdadeiros piratas do Caribe

Jack Sparrow - Piratas do Caribe

Jack Sparrow - Piratas do Caribe

Os verdadeiros piratas do Caribe

 

Maurício Fernando Bozatski

 

Estou cada vez mais impressionado com o aspecto elementar de que viver é realmente ser surpreendido constantemente pelos caminhos insondáveis que percorremos na vida. No sábado (28/02/09) quando fui fazer apenas uma compra de alguns víveres essenciais para a sobrevivência me senti literalmente dentro de um filme de ficção científica. Quem assistiu à trilogia “Os Piratas do Caribe” que apresentou ao mundo o célebre Jack Sparrow deve recordar-se de uma ilha que era fora da lei até para os próprios piratas. Trata-se de Tortuga, o lugar onde a única norma era não estabelecer norma alguma. Pois foi exatamente onde me vi neste sábado, em Tortuga.

Vou apresentar meu trajeto e as maravilhas que presenciei para demonstrar porque cheguei a essa conclusão. Primeiro atravessei a Praça Barão do Rio Branco diagonalmente em sua integralidade, e já no primeiro contato visual, pude presenciar um sujeito embriagado equilibrando-se com dificuldade para poder urinar ao lado de uma árvore centenária. Depois de observar este chamado da natureza, atravessei apreensivo por uma matilha de cães que aparentemente seguiam a um líder, trata-se de um cachorro grande e gordo de pelo acinzentado, que direcionava seus seguidores no intuito de afugentar um cachorrinho que aparentemente era novo no pedaço. Gosto de cachorros, mas a sensação de ter doze cachorros passando ao meu entorno me deixou um pouco apreensivo. Ainda não havia chegado ao meio da Praça. Então um grupo de indivíduos, cidadãos e pagadores de impostos como eu, estava acostado embaixo de uma árvore dividindo uma beberagem colorida direto de uma garrafa plástica sem rótulo, provavelmente um suco natural. Inevitavelmente ouvi fragmentos de um diálogo que ocorria entre eles, transcrevo: “_Ontem eu e o mano tava chapadaço! E não era só de goró, tinha fumado uns beque e fomo zuá com uns mané que tavam fazendo uma birinaite na vila”. Nisso eu já me afastava e não consegui ouvir o desfecho da alegre noitada dos moços. Terminando o trajeto pela Praça passo por dois chafarizes inoperantes, cheios de uma água esverdeada e fétida, na qual algumas crianças refrescavam o calor.

Minha jornada me leva até o calçadão da Rua Coronel Claudio, parcialmente interditado pela reforma necessária. Opto por um dos lados livre para o trânsito, delimitados por uma tela vermelha, e sigo meu caminho confiante até o estabelecimento comercial ao qual desejava chegar. Já na primeira quadra um bando de rapazes, trajados com roupas largas e de cor demasiado chamativa para meu gosto de rapaz criado no interior, faziam elogios grosseiros para as moças e senhoras que encontravam pelo caminho. Depois disso, um senhor vendia cigarros de procedência duvidosa para um garoto que se não for o Benjamim Button deveria ter no máximo quatorze anos de idade. Seguindo em frente, chego a um ponto de gargalo, em que pessoas com suas sacolas e transeuntes deviam desviar com dificuldade ou pular sobre várias lonas cheias de DVDs e CDs aparentemente falsificados sendo vendidos sem censura ao longo de quase todo o trajeto.

Chegando ao mesmo destino um rapaz que vendia os tais filmes, musicais e minisséries, como ele mesmo me disse, ofereceu-me um filme: “vai um filminho aí patrão”. Eu iria adquirir um filme também, mas segui meu plano inicial e comprei-o numa loja que me forneceu nota fiscal e a dignidade de um ar condicionado. A ironia disto reside no fato de que o filme que o rapaz segurava e me oferecia era nada menos do que a terceira parte da trilogia dos Piratas no Caribe, e eu, depois de me sentir em Tortuga em carne e osso, como bom socrático, não pude deixar passar a oportunidade e respondi ao rapaz que não deve ter entendido, “não obrigado, já vi pirataria o suficiente por hoje”.

Platão e a educação

Academia de Platão da Vila de T. Siminus Sephanus, Pompéia (I a.C.)

Academia de Platão da Vila de T. Siminus Sephanus, Pompéia (I a.C.)

Platão e a educação

 

Maurício Fernando Bozatski

 

Os ideais de educação formulados por Platão podem ser encontrados em sua maneira mais acabada nos diálogos A República e As Leis, nos quais o filósofo demonstra a importância do processo pedagógico para a constituição de um estado soberano e justo. E é precisamente sobre o tema da Justiça que o primeiro livro da República discorre, no intuito de se estabelecer um conceito que possa ser a base para um projeto educacional.

Podemos, a partir de este exemplo, compreender que a educação deve ser norteada por valores considerados justos para todos os agentes envolvidos no processo. Por justiça, neste caso, podemos entender a igual oportunidade para todos, em que nenhuma pessoa possa cercear o direito de outro com base na idéia de uma equidade consignada, ou seja, o aspecto de que meu acesso a determinado direito seja condicionado à perda de tal direito por outrem. A questão da educação inclusiva nos rende alguns exemplos de como isso vem acontecendo. Não é justo que deficientes auditivos, por exemplo, fiquem sem acesso à educação formal em instituições de ensino públicas, pois é direito deles, como de todos os outros cidadãos, receberem educação gratuita e de qualidade. Contudo, o que acontece neste caso é que muitas vezes tais educandos com estas necessidades são simplesmente inseridos em sala de aula sem nenhuma forma de re-estruturação física ou cognitiva das mesmas. Em muitos casos, os professores, que não receberam preparo adequado para lidar com estas situações de educação inclusiva, acabam se deparando com situações que resultam em um constrangimento para os próprios estudantes. Assim, por mais que os docentes desejem promover a educação inclusiva, ficam impossibilitados pela ausência de um intérprete ou por uma formação em linguagem de sinais, e os próprios alunos não terão acesso, pois não há uma porta que possibilite a comunicação plena entre mestres e discentes. Fez-se a inclusão de maneira injusta, e o escopo disto é que não se promoveu o acesso à educação.

Ulteriormente, Platão acredita que a educação deva começar muito cedo na vida das pessoas, e que se desenvolva, sobretudo, em torno de um treinamento físico adequado. Evitar os excessos da alimentação e preparar o corpo físico nos moldes da educação espartana era o caminho para o desenvolvimento de uma população saudável, aspecto imprescindível para a estruturação de um estado com alto nível de bem-estar social. Neste caso, analisando os dias atuais, é comum observar a desmedida que pode ocasionar vícios, ou seja, é comum encontrar pessoas que não praticam atividades físicas nenhuma – a grande maioria da população –, e uma pequena fração que vive apenas para a academia, ambos equivocados. No âmbito da educação, é normal observar nas instituições de ensino que o espaço destinado para a prática de educação física muitas vezes se limita a uma quadra de cimento rústica comprimida entre muros ou paredes das salas de aula. Gerações inteiras de jovens cresceram e crescem sem nunca praticarem atletismo, natação, e outros esportes que podem desenvolver as habilidades físicas e o fortalecimento do corpo. Aqueles pais que não possuem condições de proporcionar o acesso a academias particulares ou colégios com boas condições estruturais para seus filhos vêem-nos desenvolver-se apenas sob a prática massiva de futsal ou vôlei.

Platão ainda alerta para o fato de que os jovens recebam uma boa educação musical para que possam potencializar sua sensibilidade e criatividade. Novamente, hoje, aqueles que não podem pagar por um serviço particular para fornecer educação musical aos filhos, observam a prole crescer embalada pelos ritmos musicais da pior manifestação cultural musical da história da civilização, fruto da indústria cultural de massa.

Platão escreveu sobre isto há cerca de 2400 anos, e talvez estamos a esperar outros 2400 anos para ouvir os conselhos de um homem sábio. Pena que não tenho certeza de que haverá alguém ainda para ser educado quando a civilização chegar lá.

Perfumarias na educação

Vol de sorcières - Francisco de Goya

Vol de sorcières - Francisco de Goya

Perfumarias na educação
 
Maurício Fernando Bozatski
 
A educação contemporânea brasileira possui várias falhas que comprometem seriamente o processo de ensino e aprendizagem em sua totalidade. Tais falhas emergem de uma série de fatores de ordem política, social e tecnológica, mas, sobretudo de um estado de coisas que pode ser entendido como “perfumarias na educação”. Este termo indica a energia despendida por professores, alunos e administradores em ações que no final das contas não refletem em nenhuma melhoria no processo educacional.
No início do ano letivo é comum que os estabelecimentos de ensino organizem as chamadas semanas pedagógicas, em que se discute de tudo, tudo o que não importa para o processo educacional. Discute-se sobre textos de orientação marxista – o autor mais citado e menos lido de todos os tempos; sobre normas disciplinares para os discentes; sobre pontualidade; assiduidade e outras coisas mais. Nestas reuniões os educadores já não estranham que a polícia se faça presente para assegurar tranquilidade aos professores que vaticinam ainda no início problemas disciplinares que irão acontecer no decorrer do ano letivo. É evidente que é importante se pensar em segurança, mas o fato de se tornar consenso comum que a policia deva estar presente na escola é um sintoma de que nem os professores acreditam mais no poder transformador da educação.
Todas estas discussões não passam de perfumaria porque quando se tem como foco principal questões secundárias que não refletem a essência do processo educacional, significa que não se acredita nesta essência. Segundo Aristóteles, um dos maiores professores de todos os tempos, pois foi ele quem educou Alexandre Magno, o processo educacional se dá a partir de três momentos: exemplo, exortação e engajamento. Assim, é necessário que os professores não sejam apenas aqueles que repassam saberes prontos para os educandos, mas sim, os que são apaixonados pela ciência e que representam em carne o que esta paixão significa. Ser apaixonado pela ciência e pela sabedoria implica, inicialmente, em acreditar no poder transformador que a paixão pela ciência pode exercer nos educandos. É inútil querer ensinar ao outro sem refletir que aquilo que se ensina é fundamental para si próprio. Portanto, é inútil criar normas de condutas para os alunos quando os próprios professores fumam nos intramuros de um colégio desrespeitando uma lei federal. Como também é inútil pedir aos estudantes para que pesquisem quando os próprios educadores não lêem nem um livro no decorrer do ano. É igualmente inútil dizer para os discentes que a escola é importante como um todo quando nem os próprios professores promovem a interdisciplinaridade em suas aulas, pois estão enclausurados em sua pequena porção do saber chamada disciplina.
O segundo degrau da pedagogia aristotélica implica em promover um chamado para que os educandos sintam-se motivados a desenvolver uma mentalidade investigativa para descobrir os caminhos da ciência e o potencial transformador que ela pode promover em um humano.
Por fim, Aristóteles – o mestre daqueles que sabem, como foi chamado por Dante –, adverte para a importância do engajamento, ou seja, são os estudantes o centro do processo pedagógico, são eles os sujeitos que devem atuar como centro gravitacional em torno do qual a educação se estrutura. Se houver este engajamento, serão os próprios alunos os interessados para que os professores não se atrasem ou terminem e deixem a sala antes do final das aulas; para que os docentes preparem boas aulas e também serão extremamente comprometidos e preocupados com as políticas educacionais. Se isto acontecer os alunos entenderão qual é o propósito da educação e os professores compreenderão que nunca deixaram de ser estudantes.
Há vários caminhos para um indivíduo seguir, mas de todos eles o mais seguro é o da educação consciente, transformadora. Esta é a essência da educação, e nisto ela não pode ter orientação para a esquerda ou para a direita, não deve se dissipar na superficialidade das vaidades pessoais. Somente a educação poderá modificar o caráter imediatista da época em que vivemos, mas para isso ela não pode também ser transformada em algo que almeja resultados imediatistas. O processo educacional, dito tradicional ou inovador, é paulatino e gradativo, e, no entanto, parece que ninguém mais lembra que a própria palavra ‘pedagogia’ significa caminhar através de degraus. Talvez de todas as inovações pedagógicas não faça mal relembrar os ensinamentos do velho estagirita Aristóteles, para quem “a educação possui raízes amargas, mas seus frutos são doces”.

O humano e o tempo

Persistencia de la memoria - Salvador Dali

Persistencia de la memoria - Salvador Dali

O humano e o tempo

Maurício Fernando Bozatski

A relação existencial que os humanos mantêm com o tempo físico é fortemente marcada pela concepção de finitude, ou seja, os seres humanos possuem consciência de que a vida é uma caminhada para a morte, um destino inescapável, uma dívida que todos pagam. Contudo, esta consciência de finitude nem sempre faz parte das reflexões cotidianas das pessoas. É necessário que algo de extraordinário ocorra para que voltemos o olhar para a condição humana marcada pelo plano ontológico que leva do ser ao não-ser.

Este convite à reflexão sobre a morte, que de fato é tacitamente também uma reflexão sobre o sentido da própria existência, pode ser desencadeado pela morte de um ente próximo, pela tragédia em grandes proporções, como em um tsumani ou ataque terrorista, ou pelo efeito de catarse proporcionado pela arte. Neste caso, há um filme atual protagonizado por Brad Pitt, Cate Blanchett e Tilda Swinton e dirigido por um dos maiores diretores do cinema atual David Fincher, trata-se de “O curioso caso de Benjamin Button”. O que surpreende neste filme é que a perspectiva de envelhecimento é invertida. Benjamin (Pitt) nasce, se desenvolve e morre, contudo, ele nasce com o corpo fisicamente aparentando oitenta anos e morre com as características físicas de um recém-nascido. Esta simples inversão faz com que aquele que assiste ao filme, independentemente de suas crenças ou formação, saia do cinema questionando a si próprio sobre o sentido de sua existência.

Essa questão acerca da finitude talvez tenha sido o marco inicial da racionalidade humana. Na mitologia grega, o deus Cronos, que personifica o Tempo, ficou conhecido por ser o progenitor que devorou os próprios filhos. Assim, para os helênicos o tempo é um pai que devora os próprios filhos, e para se entender esta perspectiva de vida e finitude basta visitar um cemitério e observar suas lápides. Nelas, inevitavelmente, estarão impressas as datas de nascimento e falecimento, ou seja, impressões no tempo, este pai que nos permite nascer e que, inexoravelmente, nos fará morrer.

Na física, o tempo é muito mais que uma grandeza escalar, trata-se de um enigma que desafia e inspira gênios desde Newton e sua mecânica universal, Einstein e sua relatividade geral, e Hawking e sua breve história do tempo. Conceitos como buracos negros, buracos brancos, buracos de minhocas e antimatéria são alguns dos novos postulados da física que buscam ampliar os limites da ciência e a compreensão que temos do universo e suas origens. Todos estes conceitos colocam em questão nossa própria concepção de tempo e a possibilidade de controlá-lo como em viagens para o passado ou para o futuro.

Viagens no tempo é um tema também muito explorado pelo cinema, desde a “Máquina do Tempo”, passando pelo Delorean de Marty Mcfly (De volta para o futuro) até a surpreendente série Lost. O cinema coloca em evidência alguns paradoxos da ciência, como a possibilidade de se voltar ao passado e poder alterá-lo. Nestas situações hipotéticas o relativismo e o determinismo são relacionados em uma teia como quando um guitarrista volta no tempo e ensina Chuck Berry a tocar guitarra da mesma forma que aprendeu nos discos do próprio Berry, como isto seria possível? Ou esta viagem no tempo sempre existiu ou o guitarrista nunca poderia ter aprendido a música que ensinou ao homem que a criou. Além destes estanhos paradoxos, os filmes questionam também sobre a possibilidade de se alterar o futuro, o que transcende o limite da ciência e da ficção e atinge o âmbito da religião, pois se discute sobre a possibilidade de se alterar o destino ou efetivamente seguir um carma pré-determinado por um plano superior.

Enfim, nestas tentativas científicas, cinematográficas ou religiosas de se compreender e até controlar o tempo repousa silenciosamente o assombro do humano perante a existência e a certeza inevitável de sua finitude. Mas talvez o mais correto sobre essa relação do humano com o tempo esteja expresso nos versos do poeta argentino Jorge Luiz Borges, para quem “O tempo é um rio que me arrebata, porém eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, porém eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real; Eu, desgraçadamente, sou Borges” (Nueva refutación del tiempo).

Debate sobre cultura

Don Quijote y los molinos de viento - Salvador Dali

Don Quijote y los molinos de viento - Salvador Dali

 

Publicado em: 31/01/2009 00:00 Jornal da Manhã

Da redação

 

Debate sobre cultura

 

Josué Corrêa Fernandes*

 

Tenho acompanhado com interesse as matérias publicadas por Maurício Fernando Bozatski, professor de filosofia que honra a cátedra e que não deslustra posições como as de Copérnico, Karol Wojtyla, Jan Lukasiewicz e outros poloneses ilustres. Chamou-me atenção em seu último artigo, o fato de insistir para que seus alunos tenham espírito crítico e não sejam obrigados a receber “prato feito” ou imposição de dogmas e idéias político-econômicas, muitas delas irrealizáveis porque fruto de fantasia; utópicas, que nem dentro de seiscentos anos poderão se concretizar (ao contrário do que esperava Aldous Huxley, em seu “Admirável Mundo Novo”).

Fui professor de segundo grau, professor universitário, e sempre tive a maior ojeriza com aqueles que adentravam à sala de aula e ali, sem mais nem menos, desfiavam o rosário de ideologias que nem Morus ou Campanella haviam concebido. Tratava-se de mera imposição e não de explanação franca, sincera, completa, verdadeira, em que os prós e os contras deviam aparecer com clareza palmar, dando-se, daí, a necessária chance para que o aluno polemizasse e chegasse, por si próprio, à conclusão que lhe parecesse mais adequada.

Sempre entendi que a missão precípua daquele que ensina, é, efetivamente, ensinar; é abrir as portas do saber com honestidade, sem esparrelas ou armadilhas, franqueando-as aos discípulos. A ideologização do ensino, para mim, é mais do que um delito, porque os alunos não devem ser considerados robôs ou anencéfalos, mas seres pensantes que tem o pleno direito de aprender e de optar.

Concordo em parte com o articulista quando diz que a cultura atual “aliena e não liberta”. E isso acontece justamente porque as idéias são outorgadas, imputadas compulsoriamente sem muita escolha para aquele que resolve trilhar o difícil caminho apresentado pelas diversas variantes culturais. A par disso, não se pode esquecer da desídia oficial que prefere se dedicar a cambalachos, a jogos de espertezas e traições (como ora se vê nas eleições das mesas do Congresso), relegando a cultura e seus lídimos agentes ao último lugar das arquibancadas.

Professor Bozatski: continue a lutar contra os moinhos de vento com a mesma coragem e integridade que expõe suas idéias.

 

* Josué Corrêa Fernandes, historiador e advogado (josuefernandes@interponta.com.br).